Um Macaco Fonia

Barracão

Foram barrados, os três, na porta da boate. Um deles, indignado, reagiu. Os outros dois, resignados, ficaram de comentaristas do barraco.
-Não é possível! Você sabe quem eu sou?
-O sub-tesoureiro do sindicato dos desocupados...
-Não pode ser, estamos num país livre...
-País, sim. Já dentro da casa dele, só sai depois de lavar a louça e de dar um brilho na calçada.
-Tá pensando que eu sou moleque?
-Essa frase ficava melhor dita por alguém que não fosse pichador.
-O que que é isso, não devo nada pra ninguém!
-Não é o que dizem o padeiro e o dono da farmácia...
-Eu pago meus impostos!...
-Deve ser por isso que só entra na prefeitura disfarçado.
-Respeite os meus cabelos brancos!
-Tá vendo algum cabelo no meio da careca?
-Nunca fui tão humilhado!
-A não ser quando foi recusado no exército por feiúra.
-Isso não vai ficar assim!
-Com certeza! Quem o conhece sabe que tudo pode ficar pior.
-Você sabe de quem eu sou filho?
-Se souber diga, porque a mãe não tem muita certeza...
-Olha, eu só não te encho a cara de porrada porque...
-Porque eu tenho menos de um metro e meio, sou totalmente estrábico, tísico, e não consigo mais te alcançar do outro lado da calçada...


 
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