Um Macaco Fonia

Tofu

Nunca deixem que ninguém saiba. Pertencemos a uma sociedade secreta. A dos que não vão morrer nunca. Nem mesmo envelhecer. Quer dizer, pelo menos não além do ponto considerado razoável. Lógico, a maioria dos mortais não está percebendo. Sim, porque nos olhamos sigilosamente, com um sorriso no olhar. Sorriso próprio dos que são superiores.
O nosso segredo, há muito revelado, está aí para todo mundo ver. Ou ler. Mas os mortais não querem saber. Continuam se lambuzando com sorvetes em taças cada vez maiores. Não bastasse isso, cobrem tudo em calda de chocolate quente. Mas é lógico que eles não se satisfazem. Adicionam melados wafers, além de sebosos pedaços de castanha de caju. Para acompanhar tudo isso, oceânicas quantidades de refrigerante. Não-light! Rá, rá!
E no cinema, então... É fácil identificá-los. Os outros. Os mortais! Lá vêm eles... Com as duas mãos ocupadas, atrás de enormes copos de papelão lotados de pipoca. Crocantes flocos de gordura saturada! Com uma pitada de sal? Não. Com sal suficiente para derreter a neve de uma cidade de médio porte. Chegaram a batizar a coisa: Combo. Nome de esquadrão. “Atenção, Águia Vermelha falando. Estamos cercados. Repito, estamos cercados. Solicito envio imediato da unidade Combo. Responda. Câmbio”.
Sem falar naquelas monstruosidades que insistem em chamar de pizza. Sim, porque pizza não é mais o que vemos por aí. Elas apareceram com cara inocente: muzzarela, napolitana... O máximo do despudor costumava ser a antes temida calabreza. Pobre coitada. Foi soterrada por pesadas lajes de cinco variedades de queijo, translúcidos pedaços de bacon e batata palha. Ah, e não esqueça da borda recheada! Recentemente a consciência pesou. Passaram então a cobrir tudo com rúcula. A ingênua tática da camuflagem. Rá,rá,rá!
A lista é infindável. Churrascos. Grotescas orgias carnívoras. Antigamente realizado em ocasiões especiais ou em finais de semana. Agora incorporado ao cotidiano.
Tem mais: borrachudos pães de queijo, churros gonorréicos, embriagantes brigadeiros, quindins cobertos por gorduras “trans”-parentes, adorados Doritos, multidimensionais lasanhas, péssimos, péssimos bombons...
Cantis repletos de aspartame, estamos com nossos estômagos roncantes e hálitos cetóticos aguardando ansiosamente pela tomada do poder. Iniciaremos então uma nova raça. Invadiremos bares, lanchonetes e restaurantes com nossa munição de acelgas e brotos de bambu. Dispararemos cápsulas de gelatina e vitamina E. Bombas de ginseng. Granadas de alcachofra arremessadas de barricadas de tofu. Assumiremos nosso posto na eternidade. Jovens, é claro.
Ei, espere. Que ruguinha é esta aqui? Não, não pode ser! Não! Nãããooo!!...


 
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.